“Um dia de cada vez...”
São bocados de lembranças atadas ao tempo
Que parecem não ter forma, ambiente, sequer cor
Ensurdeço nesta ânsia de atrasar o tal momento
Desejo uterino de ouvir o pulsar, sentir o calor
Nossos opostos acumulados eram emoção e razão
Feitas da mesma matéria éramos causa e efeito
Hoje meu olhar vaga, nada assimila com exatidão
É meu coração pulsando, agora fora do peito
E fica uma sensação de busca interminável
Parece esquina errada, assunto mal acabado
Hoje, metade de mim domina a dor implacável
E a outra metade abraça um ser fragmentado
Munida de força e fé, sobrevivo com altivez
Sustentando esta saudade, um dia de cada vez.
(Gloria Salles )
Imagem de : www.olhares.com/luizhenrique
“Tantas frestas”
A incapacidade das minhas letras mutiladas
Deixam sem querer, expostas tantas feridas.
Um canto repleto de notas tristes despejadas.
Cuja harmonia se foi, em tantas vindas e idas.
E nos recantos dos versos, frestas denunciam.
O esforço contínuo que ainda em mim perdura
De querer novo começo, mas os gritos silenciam.
Limitando a eficácia do que considero armadura
Frestas evidentes me fazem um ser vulnerável.
Aos sutis e astutos ataques do ego inflamado
Que caça o ponto fraco, tentando faze-lo inábil.
Tentativa vã de ver o muro de arrimo dizimado
Porem se pelas frestas a luz turva meu olhar
Por elas, o norte certeiro me capacita desvendar.
Glória Salles
31 outubro 2009
22h56min
“Dança comigo...”
O brilho solícito no olhar fascinante
Deslizar nos acordes sutis da sinfonia
Sensual caricia em harmonioso ritmo
Inconfessável sussurro, canto que inebria.
Sedutora fragrância faz o sangue ferver
Precisão de movimentos, linguagem poética.
E a mão quente espalmada nas costas nuas
Faz perder o tino, entorpecer, esquecer a ética.
O olhar dentro do olhar desnuda a alma.
Os corações pulsam no mesmo compasso
O enroscar de pernas provocando arrepio
A sinfonia da ternura conduzindo os passos
O beijo esperado prolonga a mágica hora
Emoção e paixão fazem o tempo de agora...
Glória Salles
09 setembro 2009
19h05min

“A mensagem do mar” - Soneto
Dinamitei o cais cheio de espaços precários
Espargindo fragmentos de minhas emoções
Pedi ao mar que levasse os sonhos solitários
Numa concha qualquer guardei as recordações
Encarcerei os sonhos que andavam a deriva
Tranquei os pactos alicerçados no amanhã
Não ouvi a censura das vozes prerrogativas.
Rabisquei versos vagos, cheios de rimas vãs.
O conceito de certezas castas, a maré levou.
E na dúvida do momento repudiei a crença
Abandonada na areia, a onda meu pé beijou.
Irrigando o solo árido da minha indiferença
Entendi a mensagem composta neste azul abissal
No meu poema há reticências, jamais ponto final.
Glória Salles
09 outubro 2009
00h12min
“Pede…”
Pede, e recosto em seu peito condescendente.
E ouço suas dóceis e envolventes juras de amor
Pede, e deixo-me persuadir pela cumplicidade.
Do olhar enigmático e oculto que revelam ardor
Pede, e não permito entre nós nenhum espaço.
Deixo seu sorriso aberto me enlear as vontades
Pede, e consentida, respiro feliz no seu compasso.
E deixo o desconhecido ganhar ares de realidade
Pede, e alço vôo no azul do seu corpo sedento.
Deixo seus afagos, me caçarem ousadamente.
Pede, e deixo o corpo falar, no crucial momento.
E entre sussurros e sorrisos, recebo-o no ventre.
Por fim, se lacônico ou inesgotável, estes laços.
Pede, e me abandono na paz dos seus abraços.
Glória Salles
26 outubro 2009
23h57min